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Revendo Roma, um filme de Alfonso Cuarón, na Netflix

A 1a vez que assisti o filme Roma, de Alfonso Cuarón, na Netflix, seu ritmo extremamente lento, a demora pra apresentar um conflito mais explícito cuja intenção vai se desenhando exatamente nesse desenho sugerido da diferença de classe, não me agradou. Apesar de gostar desse ritmo herdado do bom cinema europeu de todos os tempos (Visconti, Win Wenders, Antonioni, Scola, Pasolini, etc), do nosso velho Cinema Novo, e dos contemporâneos coreanos, chineses e alguns iranianos. Revendo ontem o filme , me deixei inundar (com trocadilho) pela sua narrativa reveladora desse universo anódino do cotidiano das empregadas domésticas e me solidarizei com seu mundo acinzentado ( reforçado pela eficaz e bela fotografia), melancólico e injusto.

Uma mis-en-scene onde só é priorizado o uso de planos gerais que ressaltam o isolamento de seus personagens em suas solitárias tarefas. Os poucos primeiros planos (closes) enfocam somente objetos desse ambiente aburrido ( o balde, a vassoura, um brinquedo de criança, a pá que recolhe os excrementos dos cachorros) numa “seleção ” de quase-ícones feita com o necessário rigor dramatúrgico.

Em contraponto aos longos planos fixos, travellings que demarcam a imensidão do território doméstico à cargo dos serviços da empregada doméstica utilizados com a mesma intenção. À exceção do longuíssimo e maravilhoso plano-sequência da cena do mar, onde a doméstica salva dois meninos da família à que serve, do afogamento, submissa mas afetuosa.

Cena do filme Roma, de Alfonso Cuarón

E que antecede o mais belo e emblemático plano, o da família abraçada junto com a protagonista ( e que é também o cartaz do filme). Num único e fugaz momento onde ela é incluída e a mãe explicita um amor agradecido estimulado por seu gesto. Mas logo as diferenças se recompõem, e a menina de origem indígena volta a ser solicitada para as tarefas de sempre.


Cenas de intensidade dramática também marcam este filme que merece ser visto : o parto mal sucedido num hospital público lotado e improvisado ( como em todo o mundo subdesenvolvido) , especialmente a de Cléo em Plano- médio com o cadáver abortado da filha no colo e que evoca as mater dolorosas das pinturas cuzqueñas, e a em que Cleo vai ao campo de treinamento em busca do homem que a engravidara ( inevitável lembrar de Noites de Cabiria).


As figuras masculinas são abjetas, e esse maniqueísmo me pareceu o único elemento que mais me soa como um talvez enquadramento no excessivo surto do politicamente correto do que um natural desenvolvimento desses elementos no processo do roteiro.

Sem uma trilha musical convencional, a música de uma banda militar, um trecho que toca no rádio ( típico do mundo das empregadas nos seus trabalhos), ou a pequena orquestra na boda que acontece no hotel , se apresenta no mesmo nivel dos ruídos da criativa edição de som , complementando a narrativa.

Um filme que merece ser visto e revisto.