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SAUDADES DA PSICANÁLISE

Ou saudades do meu querido analista Eduardo Mascarenhas, que me estimulou a traduzir a linguagem do Inconsciente. Não sei se pelo fato de ser Poeta , mas essa capacidade desenvolvi com tanta facilidade e prazer que, muitas vezes, ele sugeria que eu interpretasse o sonho de outro colega de grupo.

Pois hoje, assustado, acordei de um pesadelo. Tentava entrar num casarão, cuja ” portaria ” era o Arco do Teles, na Praça XV. Eu e duas moças, todos vestidos com roupas ” de época “, como figurantes de uma ópera. Disfarçados, driblamos a vigilância dos porteiros rigorosos, não lembro com qual argumento. Chegamos num quarto , cuja paisagem vista da janela, eram ruas de Ouro Preto, provavelmente a ladeira da igreja de S.Efigênia, que se avista do restaurante Bené da Flauta. No leito, com uma expressão de morte, o meu saudoso amigo cineasta Paulo Cesar Saraceni.Eu e as moças fomos cobrar, veementes , o pagamento de alguma ” conta”. A discussão foi se tornando violenta. De repente, sozinho no quarto, as moças tinham desaparecido , estrangulo o cineasta , com um ódio do tamanho do afeto que tínhamos. A cabeça, como a de uma boneca de uma instalação do artista plástico Farnese de Andrade, sai na minha mão, e seu corpo desaparece. Aterrorizado, acordo sobressaltado.

Verbalizo para mim mesmo as cenas do sonho, técnica que desenvolvi para não esquecer. E, em seguida, começo a investigar o significado dessa mensagem do meu Inconsciente. E logo me vem o sentimento das ameaças que o cinema autoral e independente está sofrendo nesses últimos dias e a sua relação com meu sonho. Saraceni é o autor da frase lapidar do Cinema Novo ” Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” ( a cabeça dele que saiu de seu corpo e está na minha mão, arrancada como uma cabeça de boneca).E ele ( o Cinema autoral) está no seu leito de morte. O que viemos cobrar é pela sua vida. A sua ( nossa ) sobrevivência. O Cinema que representamos nas roupas de figurantes de Casanova de Fellini. O terror que sinto com a cabeça nas minhas mãos é similar ao que senti , há muitas décadas, ao assistir um personagem de A hora do lobo, de Ingmar Bergman ( tb cinema autoral) arrancar seu olho de vidro e colocá-lo num prato sobre a mesa.

Teria sido a Rainha de Copas de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carol, a mandante deste atentado contra o cinema brasileiro , com seu mantra persecutório ” Cortem-lhe a cabeça “! ? Nesse baile de máscaras a Rainha é o Cinema americano ( soberana como o Rei dos animais e símbolo da Metro Goldwin Meyer ).

Afaste de mim esse cale-se !

 

Coluna – Luiz Carlos Lacerda
Luiz Carlos Lacerda é Realizador, Roteirista e Produtor brasileiro, com estenço currículo no cinema brasileiro, tendo dirigido séries para TV sobre. Foi professor do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá (RJ), Escola Internacional de Cinema de Cuba, Polo do Pensamento Contemporâneo, Nós do Morro (RJ) e de diversas oficinas em mostras de cinema. É membro do Conselho do Museu Nacional de Belas Artes (2018/2019) e da Associação Brasileira dos Cineastas. Poeta, colaborador de vários suplementos literários e antologias poéticas.