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DEVANEIO ENTRE COLECIONADORAS

Entrevista com Ceres Franco e sua filha Dominique Polad-Hardouin. Agradável Devaneios entre colecionadoras!

Ceres Franco fundou sua galeria L’oeil de Boeuf, (o Olho do Boi, o 1° selo do correio francês) ao lado do Museu Beaubourg- Pompidou em 1972, e sua filha Dominique abriu sua galeria Polad-Hardouin em 2001.

Nesta tarde fria de inverno em Paris, agendei um encontro na residência de uma das maiores damas do mundo das Artes, Ceres Franco, nascida no Rio Grande do Sul, Brasil, radicada na França desde o ano de 1951, no alto dos seus 90 anos e algo. Com a presença de sua filha Dominique Polad-Hardouin. Transcrevo aqui este agradável devaneio entre colecionadoras:

Dominique Polad-Hardouin e Ceres Franco

MG-Boa tarde, minha amiga Ceres Franco, com sua filha Dominique, Ceres Franco é uma amiga e uma grande dama da arte, ela tem uma coleção imensa e são mais de 50 anos 60, trabalhando pela Arte…
CF– 70 anos agora trabalhando pela arte.
MG– Na sua infância, você gostava mais de desenhar, pintar, de modelar, de costurar ou era mais esportiva ou meditativa
CF– Mais meditativa, esportiva eu não tinha nenhuma vocação
DP– eu não acredito, que você foi meditativa
CF– Porque você não acredita?
DP-Porque você já tinha toda esta energia de pequena
CF– sim mas eu não tinha vocação para nada
DPH– Mas você gostava de dançar, de falar, de escutar música, de teatro
CF– sim, mas isto começou na minha adolescência, não quando eu era menina
MG-A sua infância foi la no RS, depois você foi para o Rio, depois para os USA, e depois a França
CF– Sim, e depois nunca mais sai daqui
MG– eu sei que você teve uma galeria muito importante aqui, L’oeil de Boeuf você começou sua galeria aqui em que ano?
CF– em 72, a embaixada do Brasil me ofereceu para trabalhar na galeria Debret da embaixada, mas não aceitei porque já era tarde, eu já tinha um contrato com meu sócio para abrir a L’oeil de Boeuf.
MG– Qual foi a 1ª exposição que você organizou, na sua carreira de marchand, você se lembra?
CF– De marchand eu não sei bem se fui muito marchand, porque eu gostava muito mais de possuir os quadros do que vende-los. Mas a 1ª exposição que eu organizei fui numa loja de moveis, nas caves, no porão da loja-El questro-, e coloquei meu nome fora, para mostrar meu nome e a lista dos 22 artistas. Uma crítica de arte me desanimou muito, dizendo que nenhum colecionador iria entrar na cave, etc. Porém a minha meta, a minha ambição não era continuar na cave, sendo que eu tinha que manifestar pela primeira vez e provar que eu podia continuar manifestando em vários lugares afim de mostrar que eu podia trabalhar, que eu podia organizar exposições, que eu tinha uma opção por certos artistas, que eram um pouco diferentes dos outros, do que se via no momento.
MG– Hoje em dia qualquer um pode ser artista, basta, pegar uma foto por ex do Andy Wahrol, digitalizar, e pintar alguma coisa, colar alguma coisa e transformar, é uma obra.
CF– Nossa!!
MG– Na época qual era os seus requisitos para escolher um artista?
CF– Primeiramente, o artista, a obra do artista, o trabalho do artista, tinha que me impressionar, tinha que me agradar, não sei, é como gostar de uma pessoa. A gente fica enamorada de um quadro, de uma pintura de uma escultura, como a gente pode se enamorar de uma pessoa.
E daí o artista tinha que ter alguma coisa para me impressionar, para poder…sonhar. Estávamos numa época muito ruim na pintura, porque era a época da Arte Abstrata, da abstração lírica, do tachismo, do nuagismo, tudo era estas definições que davam para esta arte abstrata, que era gestual e que não representava no fundo nada. Eram manchas, eram gestos. Bom naturalmente haviam artistas que eram excelentes, dentro desta maneira de se expressar, e eu tive que trabalhar no começo com alguns destes artistas. Mas já tinham me feito uma proposta para me ocupar de uma galeria que defendia unicamente a pintura geométrica, ai eu não aceitei porque eu queria representar a figura humana, dentro deste espirito novo, que estava começando apenas, que estava surgindo neste meio da pintura abstrata, e das manchas: figuras, e estas figuras representavam as vezes uma cara, caras, um corpo, um gesto, que representava a figura humana, e era isto que eu queria mas dentro da minha arte, que eu espera encontrar na pintura.
MG– Você focou a sua coleção, mais para a arte bruta
DPH– isto foi depois, muito depois
CF– Nesta época eu estava buscando no meio dos artistas que eram poucos, que estavam se revelando com uma pintura, que se chamava, que começou a chamar creio que foi Michel Ragon, o primeiro a dar esta apelação: ” Nova figuração”. Uma pintura figurativa, mas nova, diferente, porque havia a pintura figurativa dentro dos ensinos que as escolas de belas arte incutiam nos artistas, os que ainda faziam aquela velha figuração. Depois do impressionismo do fauvismo, todas estas evoluções na arte moderna, do cubismo e tudo isto, ai começaram os abstratos. Os abstratos haviam os líricos, os gestuais e os geométricos que faziam uma pintura bonitinha, porque eu digo, com a régua e o compasso.
DP– Mas é a Ecole de Modrian, comme même…
CF– Sim, são os artistas que trabalhavam, as grandes vedetes da época, como o Vasarely que fez o museu.
MG– Quando é que você começou implicar a sua filha no mundo da arte, ou quando é que ela começou a se implicar???
CF– Isto ela viveu ali no meio, dos artistas, isto ela vai te contar
DP– Eu posso falar francês, é mais fácil pra mim
Eu, vivi neste meio, porque eu estive no meio disto tudo, mas foi muito complicado pra mim, porque como você sabe em principio eu gostava muito da pintura, tinha prazer em trabalhar para alguns artistas individualmente, etc mas no começo eu não queria de fazer desta profissão minha carreira profissional. Eu tinha muitas dúvidas sobre esta profissão, como eu via tudo isto do interior eu sentia que era muito conflitivo, com muitas concorrências e eu não tinha vontade nenhuma de entrar neste meio e além disto era a profissão da minha mãe então era muito complicado de estar no seu lugar, de ocupar de se posicionar, então eu esperei vários anos.
E de fato verdadeiramente eu mudei de opinião e minha ótica e visão me fizeram ver que eu amava a pintura a arte acima de tudo. Aos meus 35 anos eu descobri que não precisava ir tão longe para mudar de escolha profissional, e que eu tinha que me reconciliar com a arte.
Porém não foi mamãe que me fez fazer esta escolha, ela me ensinou a ver a pintura, me abriu os olhos, me lavou os olhos, etc, como eu sempre digo; porém paradoxalmente foi um amigo de mamãe que se chama Jean Marie Heraud que me fez entrar na profissão, me deu a oportunidade de organizar com ele a 1ª grande exposição:” Les heures chaudes de Montparnasse”.As horas quentes de Montparnasse.
Depois pouco a pouco eu voltei a estudar a história da arte, e me profissionalizei, e neste momento eu comecei verdadeiramente a entrar no meio da pintura, e quando eu abri minha galeria, foi muito depois de que minha mãe já tinha fechado a galeria dela. Quer dizer que minha atividade, não é….igual, quero dizer está na sua linha estética, evidentemente, todas as suas escolhas eu as prossegui eu continuei seguindo dentro da minha história, Eu penso que eu sou sua digna herdeira porque todos os artistas que eu defendo, eu penso que ela os ama muito, e que também ela continua comprando pra sua coleção. Filho de peixe, peixinho é!
MG– esta é uma pergunta para vocês duas. Quando é que você teve esta ideia de legar sua coleção ao governo francês??
CF-A ideia, veio muito naturalmente, depois de 20 anos com a coleção na cidade da Grasse, eu fui vendo que eu podia mantê-la sozinha, porque eu não tinha nem meios financeiros, nem a força, nem a energia, sozinha. Porque eu estava sozinha, eu fiz a galeria sozinha, quando eu fiz a galeria, durante 25 anos, eu era tudo na galeria, eu era tudo minha empregada que fazia a limpeza, escrevia os convites à mão, levava nos correios, enfim eu fazia tudo. Era meu próprio diretor artístico, eu era tudo, porque não tinha meios financeiros para pagar uma secretaria. Por isso eu era muito desorganizada.
MG– Sim, mas você, conseguiu fazer uma coleção enorme, imensa, acho que tem mais ou menos quase 3000 obras de artes
DP– duas mil obras de arte
MG– e conseguiu a deixar este legado para um público.
CF-Continuei trabalhando na galeria, e fazendo exposições de vez em quando em outros lugares, mas antes da galeria eu tive outra atividade, durante 10 anos para aprender um pouco a profissão de comissária de exposições, e os artistas eram meus amigos e começaram a me darem quadros, de presentes. Eu organizava um jantar e eles vinham com um quadro, um desenho, uma coisa assim embaixo do braço. Eu fazia o trabalho que você também ainda faz com eles: de ajudar, de levar os quadros dentro do meu carro. Eu tinha um carrinho 4CV com um rack no telhado do meu carrinho e eu levava para o salão de maio, para o Grand Palais, para o museu etc enfim eu os ajudavam dentro da medida do possível cada artista, e eles sempre me agradeciam com um quadro, com uma obra de arte, qualquer coisa que correspondia o trabalho deles.
MG– E você ainda tem, a primeira obra da sua coleção, você se lembra qual foi a sua primeira obra, da aquisição, da doação, que você comprou?
CF– é que um quadro esconde o outro, porque se foi amontoando, a coleção foi se fazendo, e agora eu não me lembro qual foi a primeira. Os primeiros artistas que eu comprei pessoalmente, foi na ideia de ajudar financeiramente. Eu tinha pouco dinheiro, mas o pouco que eu tinha eu sempre economizada para comprar um quadro.
DP– O primeiro não foi o Tibério?
CF– Este Tibério estava numa miséria ai. Bom não era tanta miséria assim, mas, vinha sempre se queixar.
MG– Historias dos artistas você tem muitas, mas, você recebeu uma legião de honra do governo francês
CF– Não é Legião de honra. Sou chevalier da ordem das Artes e Letras. Isto foi em 75.
Mas no ano de 65 eu tinha organizado uma exposição muito importante em colaboração com o Jean Boghici, no museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Nessa época a Niomar Muniz Sodré ex diretora do museu do Rio, disse: “eh! é a sra que trabalha com a cultura brasileira que quer não sei o que, organizar exposições? ” Com um ar de lado assim,
MG– Frivolo
CF– de certa maneira, com um certo desprezo pelo meu trabalho. Tinha que respeitar o que eu estava fazendo.
Sei isto faz parte, é coisa de rivalidades do meio artístico, embora eu ainda não tivesse a galeria, mas comecei desde os anos 60 a organizar exposições. Já havia muita gente que me chamava para organizar exposições. As galerias da França me pediam para organizar, para fazer grupos de artistas e assinar meu nome como comissária. Para atrair o público, mas não se vendia nada nesta época. Fazia-se muitas festas, mas não havia dinheiro.
MG– Em que ano que você montou uma exposição no museu de arte moderna da vila de Paris?
CF– Isto foi nos anos 80, Não me lembro o ano, eu tinha o catalogo aqui com a foto da escultura da italiana…. Agora não sei aonde estão.
MG– depois verifico nos arquivos
MG– Dominique, quais são os futuros objetivos, da coleção?
DPH– Da coleção, o primeiro objetivo é de ficar aberto para o público e continuar mostrando de maneira permanente a coleção, de ter um local. Porque quando estava antes lá na Lagrasse, era muito artesanal somente um mês e meio por ano; e mamãe, não tinha meios nem condições de fazer da comunicação, e de trazer um público para visitar, participar e de ancorar esta coleção junto ao território. Agora que já passou a ser bens públicos há quase 5 anos, já instalada no seu Território próprio. Por ex Toda semana tem escolas que vem visitar, que descobrem a coleção, estudantes que ficam maravilhados com a descoberta, as crianças participam de ateliers com os artistas da coleção que animam estes ateliers junto ao público. Tentamos de criar eventos. Quero precisar que a região da L Aude, é uma região muito pobre. Possui muito poucas manifestações culturais. Então é muito importante especificar que a presença desta coleção é como um presente para este Território.
MG– O endereço é em Montolieu
DDPH– Montolieu, é a 18 Km de Carcassone, é uma cidadezinha, que tem como particularidade de ser a cidade do livro. Então tem entre 15 a 18 livrarias que existem lá. Desta maneira que já tem esta característica do seu lado um pouco intelectual, não é uma cidade qualquer. O que muito bonito, é que a coleção ficou reunida numa antiga vinícola. E um imóvel muito bonito. Tem esta grande sala, e os antigos toneis aonde guardavam os diferentes vinhos, foram abertos e fazem como pequenos ninhos, pequenas alcovas que permitem de perfazerem pequenas salas de exposições além deste grande hangar. E um espaço majestoso, e ao mesmo tempo difícil porque é um grande espaço, de 800 M2.Também é formidável de poder organizar todos os anos uma bela exposição. E como a coleção é importante. Todo ano mudamos a montagem afim de permitir mostrar os diversos aspectos das obras da coleção.
MG– Uma última pergunta. Se por acaso tivermos um problema meteorológico, climático um problema qualquer uma catástrofe. Falando entre arqueologia, arquitetura, enfim o mundo das artes em geral. Qual seria a obra que você tentaria, que você tivesse a possibilidade de levar contigo para algum lugar, gostaria se tivesse a oportunidade de salvar deste planeta?
CF– Tudo
MG-DPH- ai é complicado!
CF– Claro que é complicado. Um desastre total. Pra mim seria horrível, perder um trabalho de uma vida
DPH– Ela não está falando de sua coleção
MG– Eu estou falando no planeta. Um monumento, uma peça arqueológica, uma obra de arte, eu não sei qualquer coisa, que você acharia que tem um valor primordial para a civilização que você gostaria de salvar.
CF– E dificilíssimo, tem tantas coisas, o mundo artístico é tão rico, é tão maravilhoso, me trouxe tanta alegria tanta felicidade de poder penetrar aos poucos neste mundo e poder através da história da arte tudo que eu vi. Quando eu estive por ex. na capela Sistina, os afrescos do teto da capela do Miguel Angel eu tinha lagrimas os olhos, assim chorava de emoção. Esta mesma emoção eu senti no ano passado na exposição que foi organizada pelo Jean Hubert Martin, segundo a minha ideia e a minha paixão pela arte. A exposição mais maravilhosa que ele organizou na vida dele foi “ Les magiciens de la terra” em 1989 no centro Pompidou e na Halle de la Villette. Esta exposição pra mim foi uma revelação maravilhosa, porque coincidia ao espirito que eu estava dando a minha galeria. Misturando uma arte intelectualizada de artistas que fizeram os estudos nas escolas de Belas Artes mas estavam buscando uma outra expressão mais humana, mais próxima, menos intelectualizada do que o movimento oficial que se estava criando nos anos 70, que era o conceitualismo. E ele fez reunir obras de artistas do mundo inteiro que do popular e do folclórico e da criação de um artista dentro de um nível mais intelectualizado, ele reuniu tudo isto mostrando a riqueza do ser humano dentro da criação artística, dessa criação espontânea. E era isto que eu queria dar como espirito para minha galeria. Mas a minha galeria foi uma gotinha de agua dentro deste oceano.
MG– Mas eu acho que você, não é uma gotinha de agua porque você está deixando uma coleção imensa para o público.
CF– Comparado com os grandes museus, é uma coisinha
MG– Uma última pergunta pra você e Dominique.
– O que é na vida ser colecionador(a)?
DPH– Esta pergunta é pra ela sobretudo. Olha Ela vai ontem e comprou ainda este quadro. Não vai acabar nunca. Se ela não compra obras, é como ela tem emoção, ela não pode, ela não está feliz. Risos….
CF– eu cheguei aqui e não tem lugar para colocar. Se tivesse comprado um apto maior, ai eu tinha mais… Risos…
MG– é o seu sentido de viver
CF– é a minha razão de viver.
Muito obrigadas amigas

>> Paris 21 de fevereiro de 2018, Marci Gaymu

La Coopérative Collection Cérès Franco
www.collectionceresfranco.com
5, route d’Alzonne
111770 Montolieu França Tel +33(0)4 68 76 12 54

 

Coluna da Marci Gaymu

Franco-brasileira, Marci se especializou e cursou Cinema, Turismo e Historia de Arte, Desenho, Pintura, Gravura, Litografia, Joalheria. Em 1987 Fundou em Paris a MARCI GAYMU GALLERY, tendo escritórios em Hong Kong e Madrid, se especializando em Arte Latino Americana. Marci atua como comissaria e curadora de exposições internacionais, promotora em feiras especializadas, simpósios, bienais, editora de catálogos de arte e ex- editora da revista Forum Artis.