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KEITH JARRETT – COLUNA GABRIEL FREIRE

Gabriel Freire

Sempre observei as árvores com grande curiosidade. Nunca compreendi o motivo das folhas, como algumas árvores tinham umas folhas tão próximas e outras tão afastadas e como cada folha é diferente em cada espécie de árvore.

Minha curiosidade sempre foi gritante. Olhar meu pai trabalhar com martelo, cerras e lixas sempre me fez pensar em como as coisas são feitas, em cada movimento que antecedo o resultado final, aquele espaço entre quem vai executar a ação e o objeto.

Meu nome é Gabriel Freire, sou músico, compositor, violonista clássico por formação, professor de música e mestre pela ESMUC – Escola Superior de Música de Catalunya.

Vivo em Barcelona, onde sou professor e também desenvolvo um projeto autoral, esse que já ganhou seu espaço no youtube. Sinto que a arte é algo que está em tudo, cada gesto, cada momento. Sinto que arte é perceber o detalhe que deixa tudo diferente, notar que cada momento é único e conseguir apreciar tudo com cada sentido que vamos apurando durante nossa existência.

Como as folhas que são diferentes em cada árvore também temos nossas diferenças, também buscamos o sol, porém cada um com sua anatomia.

Assim vou apresentar um músico que é uma das minhas grandes inspirações, Keith Jarrett. Não irei colocar datas, dizer suas comidas, ou com quantas pessoas importantes tocou, ou vai tocar. Farei algo diferente, vou dizer como eu compreendi e até hoje absorvo o que esse músico faz.

Meu primeiro contato com Jarrett foi em 2008, não faz muito tempo, porém foi um amor gigantesco. Ouvi pela primeira vez sua interpretação para I Got It Bad (and That Ain’t Good), esse que é um standard tradicional. Essa versão ainda está no youtube, caso tenham curiosidade, é só procurar. Lembro que ouvi o começo sem prestar muita atenção, porém continuei ouvindo e vendo o vídeo. Nos dois primeiros minutos eu estava tomado por uma emoção, não consigo explicar, fico emocionado só de lembrar. Sentia um aperto no peito, algo muito forte, quando a música chega em seus 3:47 eu estava tomado de emoção. Chorei forte por um tempo. Em toda minha vida não tinha sentido algo assim. Claro que senti emoções grandiosas em outros momentos com a arte, porém isso transbordou e mudou tudo, minha mente ganhou um novo sabor. Senti que poderia ver minha vida de outra forma.

Nessa mesma noite consegui ouvir outras coisas e cada descoberta era muito diferente de tudo o que conhecia. Quando escutei o disco La Scala, entendi o mundo de outra forma. Notei que cada obra dele era diferente, pois ele tocava tudo diferente, não importava o lugar, tudo era novo e esse CD foi feito ao vivo e foi tocado uma vez só (todas as composições foram feitas na hora, com exceção do Bis), não existe outro registo dessas músicas, ou caso exista, não está igual, pois foi uma composição de momento.

Ver um músico que sobe no palco e vai compor ao vivo algo novo permite que as pessoas sintam sua fragilidade e isso é grandioso. Apresentar algo assim é muito além da nossa compreensão. Keith Jarrett, não sei descrever muito bem, só sinto uma emoção ao lembrar que cada parte desse lindo trabalho parece pensado, porém é tão forte que o mesmo se deixa levar pela música, contando uma história, interagindo com seus sentimentos e levando isso para cada pessoa.

Ouvindo o seu CD – Vienna Concert notei uma mudança. Um homem um pouco mais velho, uma pessoa mais reflexiva que começa sempre questionando os motivos de cada gesto. Esse sem dúvida foi o disco que marcou e mudou minha vida. Novamente, ele compondo ao vivo, alguns chamam de improviso, porém está muito distante de ser algo improvisado, é muito mais complexo que meras escalas. Aqui ele começa cantando cada nota, sinto que tem muito para dizer, porém existe um peso, uma força maior, um sentido profundo em questionar. O disco conta com duas partes, sua primeira parte, de 42 minutos de duração, é brutal. Sinto cada acorde diferente, porém o que mais me marcou é como ele usa a melodia para descrever situações diferentes. Quando a música fica mais agitada ele quer demonstrar uma insanidade, porém conseguimos ouvir de maneira discreta e muito bem controlada a melodia. Sempre vou traçar um paralelo com nossas vidas, pois compor é descrever quem somos de uma maneira diferente. Em meu ponto de vista ele sempre está querendo dizer que não importa o que está passando, ainda é o que sempre foi e faz isso colocando a melodia da música em diversos lugares onde muda o ritmo e tonalidade, usa muito bem todas as suas técnicas de pianista virtuoso para isso (Virtuosismo não significa só velocidade, porém controle para fazer o que pensa, como o uso perfeito das dinâmicas de cada dedo, isso é o que ele faz magistralmente).

Sim, chorei torrencialmente no final da primeira parte que termina com uma conversa com o silêncio. Com uma capacidade de dizer muito e mudar de ambientação e deixar o ouvinte onde ele deseja, faz com que tenhamos o sentimento de esperança, reduzindo as notas, reduzindo sua dinâmica e fazendo que você e eu compreendamos toda importância da duração das coisas em nossas vidas.

Em outubro de 2012 tive o prazer de ouvir ele ao vivo, na Sala São Paulo, pela primeira vez. Foi emocionante o primeiro acorde e quando notei o que estava acontecendo, compreendi o motivo da grandiosidade desse músico. Quando um artista cria uma obra geralmente ela é atemporal, nunca descreve de forma correta quem ele é, sempre deixa muitos questionamentos. Criar uma obra ao vivo não é muito comum. Não estou falando em improviso, estou dizendo criar uma obra, com começo meio e fim, com tema e todas complexidades que isso pode ter. Participar como ouvinte desse momento, não tem preço. Conhecer um artista por sua complexidade técnica é uma das formas mais simples de admirar sua obra. Conhecer o olhar dessa pessoa para vida, como digere o seu ambiente para criar algo é muito maior.

Ouvir esse homem ao vivo em 2012 me fez notar que além de músico virtuoso ele é uma pessoa como eu, e sua humanidade é o que mais me comove. Suas notas mais lentas (não por falta de técnica, ou virtuosismo), deixam música com outro sabor, sinto que é alguém que compreendeu que não importa correr, que somos o que temos dentro, um corpo de sentidos e viver é isso e mais nada. Notar que ele conta sua história em cada gravação e composição ao vivo, notar que está se desfazendo e aceitando que isso é uma passagem é grandioso. No disco Vienna Concert, existe uma segunda parte que tem 26:04, porém nos 12:00 ele muda o ritmo da música e de uma forma sem igual descreve tudo o que sempre senti sobre ele. Com arpejos, ele coloca o tema da música, assim ouvimos claramente os acordes sendo abertos e deixando que tudo se desenvolva de maneira solta e sempre com uma delicadeza sem igual. Até que nos 14:14 minutos ele quebra o ritmo, corta os arpejos e entra com acordes de uma forma simples, porém inescapável, escutem! (estou ouvindo nesse exato momento)

Sempre notei que somos um corpo cheio de sentidos e que trabalhar em cada um deles é um privilégio que temos. Ouvir e conhecer Keith Jarrett foi primordial para encontrar o caminho e as possibilidades que eu poderia ter em minha vida. Aceitar que somos diferentes e que essa diferença pode nos tornar grandiosos é uma das melhores coisas da vida.

Não vou só escrever sobre música, não vou dizer o obvio. Darei meu ponto de vista sobre algo que me marcou. Tentarei colocar cada um que ler dentro do sentimento e das sensações que já vivenciei e assim espero que nossos olhares se cruzem para dividir o que as vezes parece tão distante e está tão próximo.

Meu muito obrigado!

 

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Coluna – Gabriel Freire
Gabriel Freire, músico, compositor, arranjador, professor e mestre pela ESMUC.

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