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Memorial Jorge Amado / Zélia Gattai – Casa do Rio Vermelho

Jorge Amado (*1912 – †2001) e sua esposa Zélia Gattai (*1916 – †2008). Reprodução: Google Imagens

Há no Brasil o louvável costume de homenagear pessoas que se distinguiram, em vida, nos campos das Artes, das Letras, da Ciência, da Política ou nas suas actividades profissionais, através da construção de um edifício grandioso, um conjunto escultórico ou a moradia em que o homenageado viveu e a que é dado o nome de memorial. Dois dos últimos homenageados no Brasil, acrescentemos que sem dúvida merecedores de tal honra, foram Jorge e Zélia Gattai, por iniciativa de sua Família e da Prefeitura de Salvador, actualmente presidida por um neto de António Carlos de Magalhães, descendente de uma família portuguesa de Fafe, grande amigo dos homenageados, que foi presidente do Senado e por duas vezes governador estadual da Bahia.

Neste caso, a escolha do memorial não podia ser melhor, e mais justa. Recaiu sobre a moradia, de Jorge e Zélia, a Casa do Rio Vermelho, nome por que é conhecida, na Rua Alagoinhas, 33 e que foi adquirida por Jorge Amado em 1946, segundo diz, com o dinheiro arrecadado com a venda dos direitos de autor do livro “Gabriela Cravo e Canela” e da sua adaptação ao cinema, a uma produtora americana, a Metro Goldwin Mayer, o que o levou a dizer, que “comprara essa casa com o dinheiro do imperialismo americano”. Lembre-se que, por essa altura, Jorge era deputado do partido comunista do Estado de São Paulo.

Jorge Amado era senhor de uma profunda sensibilidade artística, tendo transformado a sua casa em um pequeno, mas qualificado museu, com obras de arte, sobretudo, dos ilustradores de seus livros, Carybé, Calasans Neto, Floriano Teixeira, Carlos Bastos, Jenner Augusto e Mário Cravo. Ali se encontram, também, trabalhos de artistas portugueses, seus amigos, como Júlio Pomar, Francisco Relógio e Cargaleiro, como também, numerosas peças de artesanato, em barro de Rosa Ramalho e muitíssimas cerâmicas do artesão e escultor popular, José Franco, de Mafra, que Jorge nunca deixava de visitar na sua “aldeia saloia”.

Seu neto Jonga (João Jorge Celestino Amado), neto também de um avô português, António Celestino, natural de São João de Rei, Póvoa de Lanhoso, diz que seu avô Jorge, gostava muito de concretar obras de arte nas paredes da sua casa, tendo incrustado azulejos de Picasso, de quem foi grande amigo, as portas e muitos painéis cerâmicos da casa são de Carybé.

Jonga afirma que a ideia da família e também da Prefeitura foi deixar a casa, o mais possível igual à época em que o casal ali viveu, com todos os objectos nos seus lugares habituais, desde a velha máquina de escrever, cujas teclas bateram as letras de muitos dos seus romances, a todos os objectos pessoais, incluindo muitas dezenas de pequenos recuerdos, adquiridos nas suas viagens por todos os continentes.

Finalmente, a Casa do Rio Vermelho, depois de um encerramento de 11 anos foi inaugurada, com pompa e circunstância, e o estatuto de memorial de Jorge Amado e Zélia Gattai, no dia 7 de Novembro de 2014, com a presença especial de actrizes que representaram as figuras femininas dos romances de Jorge Amado, no cinema e nas telenovelas, com uma especial referência a Sónia Braga, que encarnou na tela, a inesquecível figura de Gabriela. A casa foi dividida em vários espaços temáticos e uma larguíssima quantidade de vídeos que totalizaram mais de 10 horas de projecção, e que irão permitir mergulhar na intimidade da vida de Jorge Amado e Zélia Gattai.

A Casa do Rio Vermelho – Jorge Amado e Zélia Gattai (Salvador, Bahía, Brasil)| Reprodução: Google Imagens
Acervo da A Casa do Rio Vermelho – Jorge Amado e Zélia Gattai (Salvador, Bahía, Brasil)| Reprodução: Google Imagens

Há dois espaços reservados à Gastronomia na vida e no trabalho de Jorge Amado e Zélia Gattai, que são “Os amados sabores de Jorge” e “Cozinha de Dona Flor”. Estes dois espaços foram carinhosamente preparados por Paloma Amado, filha do casal de escritores e autora do livro, “A comida baiana de Jorge Amado”. Jorge e Zélia apreciavam sobremaneira a gastronomia portuguesa. O pão-de-ló do Natário, os pastéis de Belém e o arroz doce de Dona Clarinda.

Como sabemos, Jorge Amado tinha uma especial predilecção por Portugal e os portugueses, onde contava umas boas dezenas de amigos, apreciava a nossa gastronomia, tendo nomeadamente dado a uma personagem de “Tocaia Grande”, o nome do fabricante do famoso pão-de-ló de Viana do Castelo, Manuel Natário. Em uma das suas estadas em Portugal, integrou os participantes de um congresso de Gastronomia, organizado pela Confraria dos Gastrónomos do Minho, com almoço de sarrabulho, no restaurante de Ponte de Lima e jantar no “Camelo” de Portuzelo, Viana do Castelo e merenda no “Mariana de Afife”.

Certamente que muitos portugueses, que no futuro se deslocarem ao Brasil, não deixarão de visitar Salvador da Bahia e a Rua das Alagoinhas nº33, e pôr uma flor que seja na mangueira onde se encontram as cinzas de Jorge e Zélia.


Coluna – Dr. Nuno Lima de Carvalho
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Nuno Lima de Carvalho, português, Vila Franca do Lima, Viana do Castelo, Portugal, 1932. Licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de Salamanca e em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa. Secretario-Geral da Estoril-Sol de 1971 a 2002. Director da Galeria de Arte do Casino Estoril desde 1975. Títulos: Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, Comendador da Ordem de Mérito Vaz de Caminha, Brasil, Comendador da Ordem de Mérito Civil de Espanha, Cidadão Soteropolitano (Salvador da Bahia, Brasil).

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